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A Raiz do Fascismo

Atualizado: 14 de nov. de 2022



Quando Clara Zetkin apresenta suas teses sobre o fascismo crescente na Itália para o III Pleno Ampliado do Comitê Executivo da Internacional Comunista em junho de 1923, o governo de Mussolini ainda estava em seu estágio inicial, mas muito sobre as táticas de violência — principalmente em regiões agrárias de predominância anarquista — dos “fasci di combattimento” — grupo criado com a fusão de dois outros movimentos fascistas, os “Fasci Autonomi d’Azione Rivoluzionaria” e os “Fasci d’Azione Internazionalista” — já eram conhecidas.


Para ela, e para a maior parte da literatura de hoje, o fascismo tinha germinado durante a Primeira Guerra Mundial em um momento onde o nacionalismo Italiano passava por um mau momento — uma vez que eles eram considerados a menor potência europeia — e ganhado espaço de fato no momento pós-conflito quando a Itália começa a sentir os problemas causados pela guerra e o sentimento de traição que pesava nos nacionalistas com a não-anexação da Dalmácia e Fiume como territórios Italianos — pautas consideradas de extrema importância para os nacionalistas italianos. Zetkin também ressalta a importância da guerra para a dissolução do Estado burguês e da economia capitalista:


As raízes do fascismo estão, de fato, na dissolução da economia capitalista e do Estado burguês. Já havia alguns sintomas da proletarização de camadas burguesas no capitalismo pré-guerra. A guerra destruiu a economia capitalista a partir de suas bases. Isso é evidente não apenas pelo empobrecimento assustador do proletariado, como também pela proletarização de amplas massas pequeno e médio burguesas(…). (ZETKIN, 1923)

Apesar de muitos marxistas à época ainda fazerem uma análise — um tanto quanto equivocada do fascismo — apresentando-o apenas como uma expressão violenta do capitalismo, tratando a socialdemocracia como uma ala fascista — social-fascismo2 — ou ainda como uma reação da burguesia contra a revolução do proletariado que se apontava no horizonte tendo como base a Revolução de 1917 e os movimentos iniciados na Alemanha — Zetkin já apontava o fascismo como um movimento de massas nascido no seio do proletariado e da pequena-burguesia:


As massas aos milhares se juntaram ao fascismo. Ele se transformou em um asilo para todos os desabrigados políticos, os socialmente desenraizados, os destituídos e desiludidos… A pequena-burguesia e as forças sociais intermediárias inicialmente vacilam entre os poderosos campos históricos do proletariado e da burguesia. São levadas a simpatizar com o proletariado por conta das dificuldades em suas vidas e, em parte, pelos desejos nobres e ideais elevados em seus espíritos, na medida em que este aja de forma revolucionária e apresente perspectiva de vitória. Sob a pressão das massas e de suas necessidades, e influenciados por essa situação, até mesmo os líderes fascistas são forçados a, minimamente, flertar com o proletariado revolucionário, ainda que não possua por ele qualquer simpatia. (ZETKIN, 1923)

Isso caracteriza o fascismo não como uma “reação espontânea” da extrema-direita frente aos trabalhadores unificados ou como um movimento pura e simplesmente alinhado à burguesia. Tão pouco é uma punição da burguesia aos trabalhadores. É, ao menos na teoria marxista, a primeira vez em que o fascismo é categorizado como um movimento de massas com características contrarrevolucionárias nunca vistas antes em nenhum movimento — nem mesmo pelo Terror Branco.


Na mesma medida que o fascismo acenava para os trabalhadores italianos — de forma falaciosa — eles garantiam que seus discursos não incomodassem as elites que financiavam seus movimentos no interior do país. O inimigo era claramente o socialismo e não o trabalhador, este, era o pilar da nação juntamente com a burguesia. O fascismo prometeu a inserção de seguimentos marginalizados da sociedade no Estado. O sufrágio feminino e a pensão para idosos e deficientes foram algumas das promessas de Mussolini para os italianos, mas logo foram abandonadas quando os fascistas chegaram ao poder.


O fascismo falava em pensões para idosos e inválidos, o que protegeria dos piores níveis de pobreza e sofrimento. O que houve com essa promessa? Os poucos traços de politicas sociais para idosos, enfermos e doentes, que se constituíam em um fundo de 50 milhões de liras, foram abolidos. Os 50 milhões de liras foram simplesmente eliminados do orçamento “para economizar dinheiro”, de forma que aqueles que sofrem com a pobreza não tem mais acesso a qualquer recurso social. Foram ainda cortados do orçamento os 50 milhões de liras destinados a agencia de empregos e apoio aos desempregados, e os 60 milhões de liras para as associações de credito cooperativo (ZETKIN, 1923)

E continua com suas críticas ao movimento, expondo a fragilidade ideológica do fascismo e mostrando as mudanças radicais em seu programa:


Quando se compara o programa do fascismo italiano com sua real implementação, torna-se evidente o seguinte: a completa falência ideológica do movimento. Há uma contradição flagrantemente o que o fascismo prometeu e aquilo que entregou às massas. Todo o discurso sobre como o Estado fascista colocará os interesses da nação acima de tudo, assim que exposta aos ventos da realidade, desfez-se como uma bolha de sabão. A “nação” se revelou como sendo a burguesia; o Estado fascista ideal revelou-se como sendo, em sua vulgaridade falta de escrúpulos, o Estado da classe da burguesia. (ZETKIN, 1923)

O protofascismo era uma via calcada na disputa do Estado burguês de forma “pacífica e ordeira”. Fugia e muito — apesar dos ataques e assassinatos de sindicalistas — de uma política repressora aos trabalhadores tal qual as conhecidas à época. Esse aceno às massas que Zetkin explicita em sua tese é o que permite o fascismo crescer e se sobrepor aos demais movimentos conservadores e nacionalistas presentes na Itália — e não só na Itália — em sua época e aglutinar o máximo possível de pessoas de todos os tipos em suas fileiras.


Para melhor entender esse movimento de massas precisamos entender qual era o contexto da Itália e como as forças políticas dialogavam e se organizavam enquanto o fascismo crescia. E isso está estritamente ligado à Primeira Guerra Mundial — no momento de construção do nacionalismo Italiano — e no momento pós-guerra — com o recrudescimento da violência fascista e a chegada do Partido Nacional Fascista ao poder.


A Itália saíra da Grande Guerra com um número de baixas imensos e uma economia, que apesar de ter ido bem — a guerra possibilitou que os industriais italianos pagassem antigas dividas e reformulassem a produção, com a venda de aço e outros insumos para a guerra — não se sustentou quando o conflito chegou ao fim. Segundo Sasson foram mais de 650 mil mortos e um milhão de feridos (2009, pag. 46). Grande parte de tudo que era produzido pelos trabalhadores do campo ao sul do país era enviado para a guerra para suprir os soldados, não só italianos, mas também os aliados.


O fascismo havia crescido e ganhado corpo com o proletariado que nada havia ganhado ao fim da Primeira Guerra Mundial. Pelo contrário. As massas de trabalhadores rurais que haviam perdido seus filhos e netos e que foram alistados aos montes para o conflito, agora se viam deixados de lado por um Estado que mal conseguia se manter economicamente.


A entrada na guerra também ajudou a impulsionar os discursos nacionalistas. A fragmentação entre os intervencionistas — que apoiavam a entrada da Itália no conflito — e os neutralistas gerou um clima de guerra civil na Itália. O Partito Populare Italiano (católico) começa também a ser um importante expoente desse nacionalismo crescente. Em um primeiro momento como uma oposição ao fascismo — por conta do discurso anticlerical de Mussolini — mas posteriormente compondo o Bloco Nacional juntamente com os fascistas, uma vez que o Vaticano passa a considerar Mussolini uma opção viável na luta contra os socialistas. “Mussolini lembra em seu diário que o discurso mais patriótico que ouvira em 16 meses de guerra fora pronunciado numa igreja” (Sasson, 2009, p.43). O PPI contava com mais de 100 mil membros logo após a sua fundação em 1919, e com mais de 255 mil em 19203.


A vida dos que voltaram da guerra havia mudado por completo. A Grande Guerra serviu para imbuir esses soldados de disciplina, senso de coletividade, coragem e um grande ressentimento pelo Estado italiano:


O novo espírito se encarnava nos soldados que retornaram. Esses veteranos constituíram o caldo de cultura para a proliferação de violentas associações paramilitares de direita, dos quais o fascismo recrutava seus adeptos mais exaltados. Grande parte do simbolismo da extrema direita foi elaborado durante a guerra. As camisas negras usadas por seus seguidores tinham inspiração no uniforma das tropas de elite — os arditi -, idealizado no verão de 1917 pelo general Luigi Capello. O hino dos arditi, “Giovinezza” (Juventude), tornou-se o hino oficial do Partido Fascista. A própria palavra fascio (feixe ou maço) estivera em voga muito antes de Mussolini apropriar-se dela. (SASSON, 2009, p.49)

A Itália, outrora polarizada pelos neutralistas e intervencionistas, se polarizava agora, segundo Sasson, em dois partidos, o da guerra e o da paz:


Desse modo, ainda havia, em 1919, dois partidos na Itália: um partido “da guerra” constantemente em busca de um “inimigo”, fosse externo ou interno; e um partido “da paz”, que, se acaso encontrasse um inimigo, tentaria aplaca-lo de todas as maneiras possíveis. A história dos anos subsequentes evidenciou o constante crescimento do partido da guerra, sob diferentes aparências, sem qualquer impedimento por parte de um partido “da paz” cada vez mais restrito. (SASSON, 2009, p.58)

Os nacionalistas e os irredentistas4 italianos propagavam uma política de guerra, aglutinados em torno de Gabriele d’Annunzio, um poeta e político Italiano que ocupou Fiume em 1919, proclamando a Regência Italiana de Carnaro com uma constituição e simbologias com elementos que preconizam o Estado fascista — principalmente pelo desejo de “[…] abrir caminho para um novo Estado “corporativo” em que não houvesse lugar para conflito de classes.” (SASSON, 2008, p. 61).


A arte na Itália sofria uma grande guinada para um nacionalismo agressivo que ajudava na criação e fomento do partido “da guerra”. O escopo do “homem fascista” — que irei trabalhar mais à frente — é totalmente construído em uma noção religiosa e poética do homem italiano, do resgate de suas tradições, da glória pelo conflito. E tudo isto estava presente nesse veio artístico. O Futurismo de Marinetti e o fascismo terão em comum a glorificação da ideologia da guerra e da potência que os conflitos tem de proporcionar avanços técnicos e militares.


Nesse aspecto creio que seja complexo afirmar que o fascismo tenha uma repulsa pela arte, ou pelos artistas, justamente por ter em seu cerne uma grande colaboração de artistas da época que não só estavam em seu auge, mas também estavam modificando e renovando a arte italiana. Podemos discutir o conceito de arte ao qual estava mais atrelado, se era apenas uma forma de propaganda ideológica, ou se era algo substancial — essa discussão é levantada em todos os regimes políticos do sec. XX que foram próximos à artistas, como por exemplo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas -, mas nesse aspecto o fascismo odiava — e ainda odeia — “apenas” tudo que foge do seu controle ideológico.


O Decadentismo de D’annunzio era mais influente para a retórica nacionalista e irredentista do que o próprio Mussolini. O poeta virara um herói nacional ao mesmo tempo que contraria as vontades do governo Italiano que queria seguir adiante e deixar a guerra para trás, mas que apesar disso não consegue ter controle o suficiente do exército para repreende-lo pela manobra não autorizada em Fiume, uma vez que o apoio popular estava com o poeta e não com o governo. A empreitada mostrava a fragilidade do governo da Itália perante as políticas aplicadas no pós-guerra e a ineficácia de mudar o sentimento geral da população que cada vez mais ressentida se apoiava e faziam coro aos discursos nacionalistas.


Foi somente após declarar guerra à Itália e expandir suas ocupações, que o governo resolveu bombardear o palácio de d’Annuzio e desocupar de vez Fiume, respeitando o Tratado de Rapallo que considerava Fiume como uma cidade livre. Os feitos do poeta ainda seriam celebrados pelo futuro governo fascista, e pelos conservadores e nacionalistas que se agrupavam no partido “da guerra”.


Mas as forças que viriam a compor o fascismo ainda não estavam todas aglutinadas em um partido. Os conservadores e nacionalistas ainda estavam pulverizados, e Mussolini não era tão conhecido quanto d”Annunzio ou até mesmo alguns outros colegas fascistas. Em 1919, os socialistas e os católicos — que não compunham um mesmo bloco, mas se colocavam como oposição ao fascismo — foram os que mais cresceram no momento pós-Guerra. Três décimos da Câmara passaram a ser ocupados pelos socialistas — que antes ocupavam um décimo. E o PPI com um décimo das cadeiras.; O Partido Revolucionário Fascista não ocupava uma posição de destaque na crise social e política que a Itália vinha passando.


A mudança de nome do partido de Mussoline que em 1919 se chamava Revolucionário Fascista, e em 1921 passou a se chamar Partido Nacional Fascista, não foi apenas uma mudança de nomenclatura, mas sobretudo uma mudança de projetos políticos, de programa partidário. Em 1919 Mussolini se apresentava como um revolucionário, seguindo muito dos ensinamentos de seu pai que era socialista, ele propunha uma política socialista que superaria os próprios socialistas. Pautando a derrubada da monarquia, a taxação de fortunas e aumento de impostos sobre heranças e fazendo forte oposição à igreja Católica.


Rejeitado em 1919 pelos socialistas, e buscando obter um melhor desempenho nas eleições de 1920 Mussolini resolve integrar o Bloco Nacional, que incluía principalmente o Partido Liberal Italiano e o Partido Social-Democrata Italiano. Adotando um discurso mais moderado o PRF consegue um pequeno crescimento na Câmara dos Deputados nas eleições de 1921. Mas a mudança mais radical ocorre em 1922 — já renomeado para Partido Nacional Fascista -, quando Mussolini abandona o discurso contra a monarquia e a igreja católica de vez, além de se posicionar com mais afinco contra os socialistas e tentar angariar mais apoio da burguesia italiana com um discurso mais liberal. No seu discurso em Udine, em 20 de setembro de 1922 — vésperas da Marcha sobre Roma — Mussolini fala:


“Queremos retirar do Estado todos os seus poderes econômicos. Basta de ferrovias estatais, carteiros estatais, seguradores estatais. Basta desse Estado mantido às custas dos contribuintes e pondo em risco as exauridas finanças do Estado italiano. A polícia deve permanecer, pois protege as pessoas honestas de ladrões e malvados; o educador estatal deve permanecer, em benefício das novas gerações; as forças armadas devem permanecer, pois protegem as fronteiras da Pátria; e a política externa deve permanecer.” (SASSON, 2009, p.116)

A entrada do PRF no Bloco Nacional legitimou o fascismo, que passou então a trabalhar com duas frentes: violência e legalidade. Ao passo que Mussolini construía alianças mais fortes com os proprietários de terra e a burguesia rural a violência do fascismo aumentava exponencialmente, de modo a colocar o movimento em uma posição de relevância.


Mussolini havia despertado a curiosidade de grande parte da burguesia reacionária italiana, mas eles ainda não confiavam de fato no fascismo. A entrada de Mussolini na legalidade era uma forma de mudar esse quadro. Os fascistas precisavam mostrar força e incitar sua base contra seus inimigos. Mas também precisava mostrar para a burguesia que poderiam eliminar o problema — a revolução que eles acreditavam estar por vir — e estabelecer uma forma de governo que não fosse antagônica aos anseios da elite italiana.


Daquele momento, até a Marcha Sobre Roma os fascistas consolidaram mais suas forças e suas práticas. Seu caráter xenófobo — com os ataques às minorias eslovenas — e declarando guerra aos socialistas e comunistas italianos:


“destruindo em 14–15 de outubro de 1920 a redação do diário socialista Il lavatore di Trieste e a Câmara do Trabalho em Fiume. A violência estendeu-se então para o sul, na Emília: no dia 21 de novembro foi a vez do Palazzo d’Accursio em Bolonha, onde os fascistas abriram fogo contra um grupo reunido em comemoração à vitória eleitoral dos socialistas. Nove pessoas morreram e outras 100 ficaram feridas. Em janeiro de 1921, novamente na Bolonha, os camisas-negras incendiaram a Câmara do Trabalho” (SASSON, 2009, p.104–105)

Na mesma medida que a violência fascista se fazia mais presente, o apoio popular à Mussolini crescia. Não só por parte da burguesia que se assustava com o avanço que os socialistas obtiveram nos anos anteriores nas eleições e com os ventos da Revolução Russa que se espalhavam pela Europa, mas também por parte do proletariado e principalmente do Lumpemproletariado que constituíam a maior parte das forças fascistas.


A ineficácia dos socialistas e dos católicos em perceber o real perigo que o fascismo representava, e o erro do Primeiro-Ministro Giolitti ao subestimar a força do movimento fascista, inserindo o PNF na lista do Bloco Nacional e fazendo vista-grossa para os atos de terror e violência por toda a Itália, foram fundamentais para a preparação dos eventos que iriam desencadear na nomeação de Mussolini como Primeiro-Ministro da Itália com o decorrer da Marcha sobre Roma:


“Aqui a fraqueza do Partido Comunista também cumpriu o seu papel. Para além de sua fraqueza numérica, o Partido certamente cometeu também um erro político ao encarar o fascismo somente como um fenômeno militar enquanto ignorava seu aspecto ideológico e político. Não esqueçamos que, antes de abater o proletariado por meio de atos de terror, o fascismo italiano já havia assegurado uma vitória ideológica e política sobre o movimento dos trabalhadores que se encontra nas raízes do seu triunfo. Seria muito perigoso equivocar-se frente a importância de superar o fascismo ideológica e politicamente.” (ZETKIN, 1923)

O momento posterior à entrada do fascismo no Estado burguês, foi o de expandir a doutrina fascista para além de seus partidários, de forma a implementar o modelo ideal de homem fascista na sociedade italiana. E isso é importante, pois a inserção da doutrina fascista na Itália era algo que Mussolini e Gentile acreditavam ser a chave para romper com a degeneração da sociedade liberal. O homem deveria ser coletivizado, e essa deveria ser a doutrina do Estado fascista.

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