O Integralismo
- Matheus Nubile

- 15 de mai. de 2022
- 11 min de leitura
Atualizado: 16 de mai. de 2022

O movimento integralista surgiu no Brasil em 1932. Fundado por Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Miguel Raele — sendo Salgado sua liderança mais expressiva -, a Ação Integralista Brasileira é o acumulo de experiências de grupos como “Verde-Amarelo” e a “Escola da Anta”, e a aglutinação de alguns microgrupos de extrema-direita em torno de uma doutrina. E assim como o fascismo italiano, teve suas bases moldadas pelas revoluções artísticas de sua época, e pelo contexto político não só nacional, como também internacional.
O momento “pré-integralismo” começa de fato dois anos antes, não só com a Revolução de 1930, que serviria para modificar as estruturas socioeconômicas e políticas do país, mas também com o primeiro contato de Salgado com o fascismo italiano em sua viagem para a Europa. Porém a mudança ideológica mais significativa para Salgado, e consequentemente o que marcaria sua entrada mais incisiva na arena política, aconteceria com seu engajamento na Semana de Arte de 1922.
O evento foi, segundo Salgado, um marco para toda a sua geração. Foi a responsável, assim como o Futurismo italiano, por ajudar a modificar e edificar um novo nacionalismo brasileiro, que também serviu como base ideológica para o Integralismo. E apesar de Salgado ter tido uma participação bem secundária no evento, a Semana de Arte foi capaz de mudar e moldar muitos dos seus pensamentos, fomentar um debate sobre as mudanças do país, e colocá-lo em contato com outras pessoas, que assim como ele, estavam cansadas do rumo que a política partidária vinha se colocando. Segundo ele:
A revolução literária e artística de 1922–1923 teve o mérito de acender um chamejante espírito de rebeldia, com a qual iniciávamos a derrubada dos velhos cultores da forma, quebrando (…) o ritmo político do país. (Salgado, Plínio, Despertemos a Nação, op. Cit., p. 7.)
Dois movimentos de imensa importância surgiram desse evento: o “Verdamarelismo” e o “Pau Brasil” (que mais tarde viria a se tornar o movimento Antropofágico). Com um viés mais nacionalista, Salgado integra o “Verdamarelismo em São Paulo, e é dali que surge a maior parte dos militantes e intelectuais que viriam a formar mais tarde a Ação Integralista Brasileira. Posteriormente, ao “optar pela ação, colocando-se a serviço da análise, em profundidade, da vida brasileira e de seus problemas” o grupo se transforma na Escola da Anta.
Para Salgado, o Verdamarelismo estava construindo um nacionalismo muito engessado, e que não era intuitivo. A criação da Escola da Anta serviu para desenvolver um nacionalismo que era de fato brasileiro, em contraponto ao nacionalismo da época que para ele era demasiadamente “exterior”. A anta é adotada como um símbolo pois ela é um animal totem dos Tupi. Salgado considerava que esse nacionalismo deveria se voltar as raízes mais profundas do povo brasileiro. Esse resgate das raízes dos povos indígenas era um dos pontos do movimento:
Recentemente, num depoimento, Salgado justifica sua participação nos movimentos modernistas e explica, especialmente, qual foi a significação do movimento da “Anta”: “Nós procurávamos raízes nacionais para o nosso nacionalismo, e o retorno à língua tupi era uma delas. O que influiu muito em nós foi a obra de couto Magalhães, O Selvagem (…). Nós tínhamos notado que, no romantismo, José de Alencar apanhou um índio muito estilizado, muito europeizado e que não tinha ainda raízes profundas. Nós procurávamos as raízes profundas, por que o índio é o denominador comum de todas as raças.” (TRINDADE, 1974, p. 53)
Assim como seu pai, Salgado era um militante do Partido Republicano. Os contatos com o nacionalismo da Semana de Arte e com suas leituras de filosofia, junto ao seu envolvimento com a corrente materialista, fazem com que Salgado enxergue o partido como algo ultrapassado, incapaz de responder aos anseios da nova geração — inclusive dos intelectuais jovens do próprio partido — uma máquina eleitoral sem pretensões doutrinárias.
Esse é o momento em que ele rompe com a política tradicional. Produzindo mais do que nunca como jornalista e escritor, de forma mais engajada politicamente, que era o marco da época:
A geração de 1922 se caracteriza numa primeira fase (1922–1930), por sua ruptura com o passado e pelo interesse crescente pela política em detrimento das preocupações exclusivamente estéticas. (TRINDADE, 1974, p.50)
Em 1930, dois anos antes da fundação da AIB, e alguns meses antes da Revolução de 30, Salgado faz uma viagem à Itália e se impressiona com a doutrina fascista, e com seu líder. De fato, o fascismo não era um modelo a ser copiado e exportado para o Brasil, segundo o próprio Salgado, mas algumas coisas chamaram a atenção.
O controle do capital pelo Estado fascista, o desprezo pelo processo democrático burguês — Salgado estava desiludido com o sufrágio, e via a democracia burguesa e o processo eleitoral com profunda repulsa –, e acima de tudo o corporativismo adotado pelo regime, eram coisas que mais tarde seriam “adotadas” pelo movimento integralista.
Contando eu a Mussolini o que tenho feito, ele achou admirável o meu processo, dada a situação diferente de nosso país. Também como eu, ele pensa que, antes da organização de um partido, é necessário um movimento de ideias. (SALGADO, 1936 apud TRINDADE, 1974, p. 83)
O Integralismo não era considerado por suas lideranças como um partido, e sim como um movimento. Portando a AIB não seguia um programa político, e sim, uma doutrina. Criando diversas organizações dentro do próprio movimento que eram responsáveis por modificar e preparar o militante integralista para se tornar de fato um homem integral.
Como disse antes, Salgado ficou impressionado com o corporativismo fascista, e assim como o fascismo italiano, o integralismo adota como modelo organizacional da sociedade o corporativismo. Para eles não há outro modelo que sirva para unificar patrões e empregados numa forma integral. Fora do corporativismo prevalece a luta de classe, e a fragmentação liberal da sociedade, cada setor lutando com suas próprias armas contra seus opositores — que não deveriam ser grupos antagônicos.
Porém, aqui, existe uma diferença entre o pensamento fascista e o integralista. A ideia de Plínio Salgado para o Estado Integral era muito interligada ao caráter espiritual -o corporativismo integralista, pensado por Salgado, era totalmente atrelado à igreja e às ideias do corporativismo Católico Apostólico Romano. O Estado deveria ser organizado de forma que ajudasse o homem a ser integral, ou seja, ele deveria atender as necessidades materiais, intelectuais e espirituais do indivíduo. Aqui, ao menos para os Integralistas, a noção de Estado se dissocia da noção de Estado fascista, pois existe um caráter de evolução da humanidade no integralismo.
Inclusive, o próprio conceito de Integralismo, abordado por Plínio Salgado, vem do catolicismo. O integralismo católico, que surge no século XIX, firmava uma base católica em todas as ações políticas e sociais do ser humano, submetendo o Estado aos princípios morais do catolicismo, e eliminando qualquer outra corrente ideológica. Aqui o integralismo de salgado, e o integralismo católico possuem no humanismo e no liberalismo um inimigo comum, uma vez que a igreja também condenava a separação entre o indivíduo e a política, tratando-as como uma coisa só, e colocando uma força espiritual superior como única potencializadora do homem.
Enquanto o fascismo italiano leva a ideia do “feixe de varas” como uma unidade nacional para fortalecimento da nação — aqui no caso com um caráter mais militarista, prezando a ordem -, o integralismo enxerga na unidade uma forma não de fortificar o Estado, e sim o homem. A ética do homem, o espírito do homem, são as coisas que construirão o Estado integral; indivisível, forte e capaz de prover ao homem tudo o que ele necessita para evoluir. A visão integralista não parte do Estado — como no fascismo italiano — e sim do próprio indivíduo, que por hora, está degenerado pela sociedade liberal.
A partir deste humanismo espiritualista se elabora a concepção da vida social que aspira a um retorno do ideal medieval de uma sociedade harmoniosa:
“Os homens e as classes podem e devem viver em harmonia (…). Todos os homens são suscetíveis de harmonização social e a superioridade que existe acima dos homens é a sua comum e suprema finalidade”. (…) Neste aspecto doutrinário o integralismo aproxima-se muito mais dos fascismos conservadores — o português (Salazarismo), o espanhol (Falange Espanhola) e o belga (Rexismo) — que do espiritualismo vago do fascismo italiano ou do agnosticismo nacional-socialista alemão. (TRINDADE, 1974, p.209)
O Homem Integral deveria ser uma forma balanceada de um homem espiritual, político e econômico já que esses três aspectos seriam fundamentais para a construção do Homem e da sociedade integral. Como diria Salgado:
Dar ao homem físico, ao homem material, tudo aquilo que ele necessita para cumprir seus deveres e exercer seus direitos — os direitos necessários para que possa cumprir seus deveres; e ao homem espiritual tudo aquilo que lhe possa satisfazer a sede de infinito (SALGADO, 1936)
O Integralismo deveria, então, se apresentar como uma solução para o dilema que eles enxergavam que estava posto na sociedade, principalmente nos grandes centros urbanos que era o foco da degeneração do homem e da sociedade burguesa.
Fascismo e Integralismo compartilhavam uma visão muito aproximada sobre liberalismo e comunismo. Mussolini já havia “aceitado o socialismo como doutrina” antes da fundação do fascismo em 1915, e Salgado havia entrado em contato com o socialismo Soviético. Para ambos o liberalismo e o comunismo eram faces da mesma moeda; rejeitavam o Estado como único potencializador possível do homem, fragmentando-os hora na noção de “luta de classes”, hora no individualismo desenfreado que, segundo Mussolini, matava a liberdade do homem.
A sociedade liberal, segundo a doutrina integralista, reduz o homem ao individualismo, ao materialismo grosseiro, a uma simples engrenagem de uma linha de produção infinita o afastando de sua família e tornando difícil ao homem o cumprimento dos seus deveres religiosos. Já o comunismo seria uma outra face desse mesmo problema, levando o homem à um coletivismo forçado, transformando-o em um sub-homem e negando sua espiritualidade. Ambos, liberalismo e comunismo, levariam ao problema das revoluções modernas.
Salgado também agregava à doutrina Integralista o seu equivalente ao “estado de guerra permanente”, só que aqui, ao invés de adotar somente o aspecto do militarismo, do Estado belicoso, adotava também um viés espiritual. Apesar de Salgado reivindicar que as nações devem ser configuradas de povos guerreiros, o confronto entre o “bem e o mal” aqui era marcado muito mais pelo confronto entre o materialismo e o espiritualismo:
Quando o espiritualismo predomina, a luta se atenua, por que fatores de apaziguamento (a bondade, a solidariedade humana, o senso ético e religioso) entram em sua composição; quando, porém, reina o materialismo, prevalecem os fatores de desagregação humana (o orgulho, a vaidade, a rebelião, a indisciplina) que são as causas do desaparecimento das nações e das civilizações. (TRINDADE, 1974, p.211)
No que diz respeito a estruturação do Estado integralista, a própria AIB serviria como um modelo de organização pré-Estado. Ou seja. O próprio movimento, e como ele se organizava, já deixava explicito a forma como os integralistas organizariam o Estado quando a doutrina fosse aplicada:
A estrutura da A.I.B., desde o Chefe até os militantes de base, forma uma organização burocrática e totalitária. A burocracia da organização manifesta-se através de um complexo de órgãos, funções, papéis, comportamentos previstos minunciosamente pelos estatutos, resoluções do Chefe e rituais; o caráter totalitário, por sua vez, através das relações rígidas entre os órgãos de enquadramento disciplinado dos militantes (a partir das organizações da juventude até a milícia) e da submissão autoritária e fidelidade aos superiores hierárquicos. Neste sentido, o totalitarismo e burocracia são elementos indissociáveis na organização do integralismo. (TRINDADE, 1974, p.169)
E de fato, não existia uma separação entre a vida política e a vida pessoal dos militantes. Uma vez que diversos ritos integralistas englobavam desde cerimonias de casamento até funerais, onde os membros deveriam seguir as tradições e os ritos da A.I.B.
A maior interação entre integralistas e fascistas ocorreram devido aos avanços do nazismo em solo brasileiro. Entre 1920 e 1930, milhares de alemães imigraram para o Brasil devido — em partes — aos problemas econômicos que a Alemanha vinha passando pós-Primeira Guerra Mundial. Os laços fortes que eles ainda mantinham com a Alemanha, a descrença na república de Weimar e o apreço pelo nacionalismo nazista que era crescente no país fez com que surgissem diversos grupos nazistas no Brasil. Com isso, mesmo ainda considerando o integralismo uma cópia não muito boa do programa fascista, incentivam que os fascistas brasileiros, engrossem as fileiras integralistas com intenção de frear o avanço da doutrina nazista.
Porém, a ideia do Estado Fascista nessa época era se inserir na América do Sul, e da mesma forma que eles se aproximavam da Frente Integralista Brasileira, se aproximavam do governo de Vargas. As relações entre fascistas e integralistas só vai começar a se desfazer quando é mais benéfico aos fascistas apoiar Vargas, uma vez que ele já estava no poder — Estado Novo -, e acenava uma parceria com os italianos.
O fim do integralismo se deve à diversos fatores, e os três mais importantes são: o fim da permissividade de atuação por parte de Getúlio Vargas, as duas derrotas sofridas pelos camisas verde, primeiro na “Batalha da Praça da Sé” em 1934 e posteriormente na fracassada tentativa de golpe de Estado em 1838, e o fim do apoio fascista ao movimento e a perda de credibilidade do fascismo após o afastamento de Vargas do Eixo.
As resoluções tidas pela Internacional Comunista — em contraposição as resoluções da Zetikin — trouxeram alguns problemas à Frente Única Antifascista — principal unidade de enfrentamento ao fascismo no Brasil, que posteriormente se transfiguraria na Ação Libertadora Nacional -, já que os partidos alinhados à Comintern não participavam de nenhum ato, manifesto ou frente realizada por sociais democratas. Devido a fragmentação do movimento, o integralismo até então, não tinha uma oposição solidificada e contava com amplo apoio do Estado, incluindo a polícia, que fazia vista grossa para suas ações. O quadro só começa a mudar quando os camisas verdes radicalizam suas ações, e começam a atacar fisicamente seus opositores.
A vontade de contramanifestar cresce muito desde que se divulgaram atos de violência dos integralistas em várias partes do país, dentre os quais a agressão a bengaladas praticada pelo líder camisa verde Gustavo Barroso (o escritor) contra a operária Nair Coelho, em Niterói. (ABRAMO, 1984, p.42)
As mudanças nas políticas aplicadas pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas com o avanço mais claro do fascismo e do nazismo em meados dos anos 30, faz com que o PCB (Partido Comunista Brasileiro) se insira dentro desse quadro de combate ao integralismo, e passe a participar — mesmo que de forma tímida — da FUA. Assim, em 7 de outubro de 1934, em reação à convocação da AIB para as comemorações aos dois anos do Manifesto Integralista na capital paulista, a FUA se reúne para impedir a manifestação, o que desencadeia um conflito armado entre os integralistas e os antifascistas que durou horas, e que terminou com a debandada dos integralistas.
O conflito teve consequências negativas para os integralistas, que passaram a ter uma oposição mais encorajada contra suas ações, uma vez que o vigor dos grupos antifascistas foi renovado com a vitória obtida. As repercussões também tiveram caráter nacional, encabeçando uma campanha contra as políticas autoritárias de Vargas.
Salgado não apoiava verdadeiramente a Revolução, uma vez que entendia que ela quebrava com estruturas sociais que ele apoiava. Porém, via nela uma forma de encaminhar o Brasil para uma forma de governo realmente efetiva. Nos anos que se seguiram Salgado tinha tentado se aproximar do Governo Provisório de Getúlio Vargas, primeiro com um apoio indireto à Revolução de 1930, depois com notas políticas sobre as diretrizes da Ditadura. Para ele a Ditadura era o que o povo precisava naquele momento. Uma vez ignorado por Vargas, tenta uma aproximação da juventude, pregando uma revolução dentro da Revolução.
Em 1937, com o fim das agremiações políticas no Estado Novo, os integralistas que até o momento apoiavam Vargas, passam a criar um sentimento de vingança pelo estadista quando a aplicação do Estado Novo, não proíbe apenas os comunistas de se organizarem, mas também os camisas verdes. A ideia deles era não só apoiar o novo regime, mas conduzi-lo à ditadura e à doutrina que o povo brasileiro precisava. Porém, Vargas já via Plínio Salgado como uma ameaça a algum tempo, porém utilizava dos integralistas quando necessário.
O ressentimento de muitos integrantes cresce, e em 1938 colocam em prática um plano para depor Vargas. A ação não só resulta na derrota dos milicianos integralistas que estavam presentes — com a morte e a prisão da maioria deles durante o conflito -mas também na prisão de outros 1500 integralistas, e no exílio de Plínio Salgado.
Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial em oposição ao Eixo, e o cerco aos grupos nazistas em solo brasileiro — inclusive com a expropriação e fechamentos de prédios ligados à militantes nazifascistas, e a proibição de expressões da cultura alemã em público — cresce a repulsa pelas doutrinas que fazem parte do Eixo, e com isso entra em declínio o prestígio de suas vertentes brasileiras.
Quando Salgado volta do Exílio em 1945 — com o fim do Estado Novo — ele tenta reaver a militância Integralista ao fundar o Partido de Representação Popular; e em 1955 se candidata à presidência da República obtendo apenas 8% dos votos. Apesar da tentativa de desassociar o integralismo do fascismo, a imagem do grupo já estava muito desgastada e o movimento nunca voltaria a ter a força que teve.

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