Eu, Robô — Isaac Asimov
- Matheus Nubile

- 23 de mai. de 2022
- 4 min de leitura

A primeira vez que pensei em ler “Eu, Robô” foi logo após assistir ao filme homônimo estrelado pelo Will Smith. Lembro que na época eu pouco conhecia sobre ficção científica, e Isaac Asimov era até então um nome desconhecido. Mas ok. Robôs, suspense e uma ação considerável agrada ao jovem Nerd.
Após ler o livro percebi que o filme — que passou com louvor pela “Regra dos 15 anos” mesmo com efeitos ultrapassados — seguiu um caminho totalmente diferente. Ótimo. Assim ganhamos em dobro. Um ótimo filme e um ótimo livro. Uma vez que ao meu ver uma adaptação dos contos do Isaac contidos nesse livro não dariam uma adaptação boa — talvez no formato de seriado daria — assim como “Jogador Numero Um” não daria uma boa adaptação se fosse totalmente fiel ao livro. Hoje temos séries mais pesadas, então a história muda de figura, e um conto por episódio seria uma maravilha.
Um Livro. Nove Contos. A Mesma Reflexão.
“Eu, Robô” não é um livro com começo, meio e fim. Apesar de ele ter uma certa linearidade ele é uma coletânea de contos. Nove contos no total. Cada um com uma abordagem diferente, mas buscando tratar de assuntos similares e consolidando as “Três leis da Robótica” que seriam importantes não só para suas histórias, mas também para a cultura Pop no geral e até mesmo para o debate científico e filosófico sobre as inteligências artificiais.
1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal;
2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei.
3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
E esse é o ponto mais importante das obras. Por que sempre ouvimos como a ficção científica — principalmente a de Asimov — é repleta de termos técnicos, e de como é maçante ler algo que parece uma cartilha científica — e eu li e ouvi falarem bastante isso desse livro, inclusive em resenhas no Skoob— mas eu não senti que de forma alguma a intenção do Asimov era tratar de engrenagens ou funcionamentos técnicos de um cérebro positrônico.
Pelo contrário. A discussão mais importante aqui é apresentada por quem o autor escolheu ser a protagonista pois é dela, e com a visão dela, que entendemos melhor toda a problemática apresentada. Susan Calvin não é uma engenheira, ou sequer entende como montar um robô. Ela é uma psicóloga roboticista. O papel dela nesse livro é entender a “mente” do robô conforme as Três Leis da Robótica são postas à prova.
Susan é uma pessoa que não se dá bem com outros humanos. Lhe falta tato para lidar com as pessoas. E por isso de uma forma meio “tímida” ela prefere as máquinas. Enquanto os matemáticos estão preocupados com processos, desempenho e acreditam com mais fervor na impossibilidade de falhas nas Três Leis da Robótica, Susan sempre tenta enxergar a situação por uma ótica mais humana.
“Mentiroso!” e “Um robozinho sumido” são os contos que mais abordam como Susan tenta atribuir aos robôs uma perspectiva mais humana. Enquanto “Robbie” é o texto que vai mostrar os efeitos dos robôs nos humanos quando inseridos na nossa cultura de forma mais orgânica.
O que mais me chamou a atenção em “Eu, Robô” é uma problemática -leve- sociológica sobre os impactos causados na sociedade com os robôs e uma evolução gradativa sobre como funcionam as três leis da robótica e como isso confere um salvaguarda para a humanidade na mesma medida que intensifica esses problemas.
[…] se parar para pensar sobre isso, as três Regras da Robótica são os princípios essenciais que orientam muitos dos sistemas éticos do mundo. […] Para explicar de forma simples: se Byerley seguir todas as Regras da Robótica, pode ser que ele seja um robô, e pode ser que seja apenas um homem muito bondoso. […] Atitudes como a dele só poderiam vir de um robô, ou de um ser humano muito honrado e decente. Mas veja bem, não se pode diferenciar entre um robô e os melhores seres humanos.

O filme é um compilado do livro!
O filme consegue compilar os contos em uma única história totalmente nova. Alguns personagens são lembrados, outros são mesclados para se tornar um, e a Dra. Calvin está presente mas com uma personalidade deformada.
Sonny é um robô criado para infringir as três leis da robótica. Criado desde sempre como um filho de Lanning. Tem consciência de que não é um robô comum ao mesmo tempo que se questiona sobre sua própria humanidade. O propósito de Sonny não é uma lei, ou uma ordem, mas uma vontade herdada de seu criador. O “medo” de Sonny é não reconhecerem sua existência uma vez que nem ele mesmo sabe o que é.
Spooner é um policial que não aceita a inserção dos robôs na sociedade por medo da confiança cega depositada neles, onde esperamos que todos os nossos problemas sejam resolvidos por máquinas. Numa sociedade que cada vez mais enxerga as pessoas como uma nota no final de um memorando.
Mas o Livro é Bom Mesmo?
Enfim. Concordo com algumas resenhas. O livro é arrastado, cheio de termos sobre robótica, e por vezes parece não levar à lugar algum. Mas, com exceção de “Andando em Círculos” e “É preciso pegar o Coelho”, todos os contos trabalham mais com a problemática da Humanidade.
Não é algo que eu diria pra alguém que nunca leu Ficção Científica ler. Talvez Robbie e o Mentiroso sejam contos mais leves pra uma introdução. Mas como na minha opinião eles devem ser lidos com o conjunto todo, deixem para depois. Asimov é imenso, e merece ser lido.


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