Resumo|Resenha - AMÉRICA ARACNÍDEA -Ana Luiza Beraba
- Matheus Nubile
- 19 de jan. de 2023
- 6 min de leitura
"Este livro tenta compreender como o Brasil buscou seu lugar dentro do continente americano na época da publicação do suplemento "Pensamento da América", que integrou o jornal "A Manhã", de agosto de 1941 a fevereiro de 1948. A idéia do suplemento era estimular a aproximação cultural entre as nações americanas e refazer a imagem da América, aproximando-a dos brasileiros que, sob o Estado Novo, viam-se bombardeados por um novo país. Ana Luiza Beraba apresenta aqui um estudo desse jornal que trançava lirismo e ideologia, ficção e realidade. E que tentava criar uma identidade nova para os brasileiros, até então acostumados com as referências européias."

Primeiro, algumas considerações sobre o texto.
Beraba vai trazer uma ótica cultural para os processos políticos brasileiros na Era Vargas.
A superfície do texto sempre vai tratar de algo cultural - um jornal, um programa de rádio, poesia - mas em profundidade conseguimos ver toda a complexidade de uma sociedade brasileira ainda isolada culturalmente de seus vizinhos, e como isso afeta a posição política do Brasil na região. É uma boa forma para entender nossa formação cultural, e até mesmo, entender o que levou ao golpe civil-militar de 1964, uma vez que vários atores e processos que permitiram o advento da ditadura militar são apresentados aqui.
A arte aqui não é vista como algo isolado, mas perpassada e transformada - assim como se coloca como uma agente modificadora - a sociedade e a política na América.
O flerte de Vargas com o eixo não era algo surreal no mundo naquela época. Levando em consideração que o fascismo agregou uma imensa gama de correntes políticas, muitos países, intelectuais (mais frequentes nas correntes liberais) acabavam por elogiar, se aproximar ou até mesmo implementar políticas parecidas em seus governos.
Por exemplo, o vinculo entre cultura e Estado no governo Vargas é parecido com o do governo de Mussolini, e parecido também com o governo de Salazar durante o Estado Novo em Portugal - todos com suas particularidades, obviamente. Isso era em certa medida uma "onda mundial".
Estado, Cultura e Era Vargas.
A autora nos traz uma reflexão de como a sociedade/governo brasileira enxerga o "ser Americano". Primeiro, fica claro no texto que para ela a América é todo o continente - não afetado por divisões socioeconômicos, como no caso "América Latina" - usando o termo norte americano ou estadunidense para se referir aos habitantes dos Estados Unidos.
A partir dos anos 40 houve um processo de americanização nos moldes estadunidenses aqui no Brasil. Essa questão começa a ser explorada levando em consideração o "período entre guerras", onde a Europa perde muito do domínio econômico que tinha sobre a América, e os Estados Unidos vê nesse processo a oportunidade perfeita para impor sua doutrina no continente: liberalismo e democracia. Porém com o advento da Segunda Guerra Mundial, e com a pressão Alemã no continente a fim de ter entrada territorial e econômica, os EUA percebem que precisam agir no continente para não só dominar a economia, mas também proteger o continente e com isso os Estados Unidos.
Dessa forma eles arquitetaram uma "unidade" entre os países da América, mas suas ocupações militares em países como Cuba fizeram com que a América os visse com desconfiança, obrigando os estadunidenses a mudar suas relações diplomáticas. Nasce assim a Política da Boa Vizinhança.
Qualquer ataque a um país da América seria considerado um ataque a todos os países do continente; os países deveriam manter uma cooperação uns com os outros; e foram aplicadas políticas culturais para disseminar entre a população para a construção de uma ideia de amizade entre os povos, o pan-americanismo. Com isso, até mesmo o Walt Disney esteve no Brasil afim de criar algo com essa finalidade. Na guerra os EUA ficariam a cargo de enviar tropas e os demais países de fornecer matéria-prima. Assim os EUA manteriam de forma sutil o domínio sobre os países, obtendo poder diplomático durante a guerra, enquanto minava a economia dos demais países, se fortalecendo.
Neste contexto, o Brasil governado por Vargas, queria se transformar em uma potência regional na América do Sul. Vargas via o desespero dos Norte Americanos, e poderia conseguir deles recursos fundamentais para o desenvolvimento do país e da indústria brasileira. Assim o Brasil conseguiu capitalizar a disputa da Segunda Guerra Mundial. O flerte de Vargas com os nazistas e a decisão de manter, inicialmente, o Brasil fora do conflito, o permitiu avaliar a situação e negociar com os norte Americanos, decidindo o que seria mais benéfico.
O Estado Novo estava criando um vínculo mais forte entre cultura e Estado, submetendo todas as mídias do país aos órgãos de controle do Estado, promovendo artistas e teóricos que pensassem uma identidade brasileira. A cultura e o Estado tinham uma relação cada vez mais promiscua.
Vargas adota a postura do movimento "Verde e Amarelo" de cunho conservador, que tinha em suas fileiras Plínio Salgado - fundador da Ação Integralista Brasileira - com uma mescla de nacionalismo conservador, pan-americanismo, e a noção de um governo forte. Vargas rejeita a democracia norte americana, e se exalta como um país de fato Americano, absorvendo o pan-americanismo estadunidense, inserindo um fator importante: Autodeterminação dos Povos.
O Brasil era demasiado novo para construir sua identidade com base em sua história, deveria então construir com base em sua territorialidade. "Não basta apenas conhecer os territórios, mas reconhecer-se neles", dessa forma foi pensada uma visão brasileira do "ser Americano", que era geral e particular em relação a toda a América. O Brasil deveria parar de importar ideias e a construir sua própria ideia de nação.
O Periódico "A Manhã" era um jornal do Estado que se incumbia de tratar (o único) da pan-americanidade, e dentro dele havia o "pensamento da América", que não tratava das questões políticas, mas traduzia e publicava diversas poesias, artigos, entrevistas, artes, entre outras produções de artistas|autores Americanos. A ideia era mostrar que na América existiam artistas tão bons quanto os Europeus.
Com o ataque do Japão à base norte americana de Pearl Harbor, o Brasil corta definitivamente as relações diplomáticas com o Eixo, e todo o cenário Americano se transforma. O "Pensamento da América", agora uma revista publicada mensalmente, passava a comportar cinco matérias sobre política, três sobre diplomacia e seis sobre cultura. O governo Vargas ainda se mostrava relutante em aceitar a imposição dos norte americanos sobre a forma da pan-americanidade. Um diplomata estadunidense exaltou a união das culturas, que na visão dele se fundiam para "cultura Americana superior", na qual Cassiano Ricardo rebate a declaração no "A Manhã" respondendo "há vinte e uma formas de ser Americano, não apenas uma". O próprio Vargas em seu discurso de rompimento com o Eixo deixa claro que a soberania da nação se coloca acima da união continental, porém, ainda exaltando essa união.
Sob a direção de Renato Almeida, a revista passou a priorizar a música e o folclore. Existia também uma forte propagação da música Americana nas rádios nacionais, com horários para música Cubana, Argentina e etc. Apesar da Argentina ainda manter relações com o eixo, e isso deixar outros países da América desconfortáveis, ainda existia uma expectativa e um apelo para uma unidade intelectual.
Com o fim da guerra os jornais passaram a exaltar Los Angeles como a nova capital cultural do mundo, por sua música, americanidade e cinema. Chegava o fim do governo Vargas, e o fim do projeto pan-americano empregado pelos Estados Unidos. Essa América apresentada para os brasileiros foi tecida por teias de vontade pessoal e governamental.
De fato, os anos que se seguiram trariam novos ares, não só para a América, mas também para o Brasil que começava a "respirar democracia". A criação do pan-americanismo fora deixada de lado. O suplemento "pensamento da América" voltava a integrar o "A Manhã", perdendo muitas de suas características e acabando por encerrar em 1948.
Em suma, houve por meios de tratados diplomáticos um incentivo muito grande por parte dos Estados Americanos para as trocas culturais entre esses países. O envio de obras para bibliotecas nacionais; o intercambio universitário entre professores e alunos e a aprendizagem - por vezes obrigatórias por lei nas escolas - do português e do espanhol. O cenário de guerra era o pior possível para a propagação e investimento em cultura, a França enviava cada vez menos livros para o mercado brasileiro, mas o Brasil aumentou seu investimento no capital cultural durante o Estado Novo. Havia de fato um forte investimento no intercâmbio cultural na época e o Brasil buscava seu lugar entre os países da América do Sul.
Com o fim da guerra as atenções se voltavam para outro inimigo: o comunismo. Não sendo mais o alemão, o inimigo agora estaria dentro de nosso continente; de uma América tomada pela luta de classes e pelo crescente aumento da desigualdade social. Ficaria impassível criar uma unidade pautada em regionalidade dessa forma.


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