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O Racismo de Nossos Intelectuais: O Brasileiro como Vira-Lata — Jessé Souza



O autor abre uma discussão sobre a construção da identidade do povo brasileiro — principalmente a construída por Sérgio Buarque — e como essa identidade se mostra importante hoje para justificar o desmonte do Estado, os discursos anticorrupção e a exploração das nossas riquezas por agentes nacionais ou estrangeiros que espoliam o povo brasileiro sob sua chancela.


Jessé coloca em oposição dois paradigmas racistas que já dominaram — ou ainda dominam- a ciência, principalmente as ciências sociais no Brasil, e com base neles, explicar como se constrói a relação de poder na nossa sociedade hoje. O primeiro é o racismo étnico que foi dominante do século XIX até o século XX, quando foi substituído por um tese mais “palatável” e moralmente aceita: o culturalismo.


Para ele, o culturalismo e o racismo étnico não se diferenciam tanto. O culturalismo abriu portas para uma expansão dos ideais racistas onde já não limitados por cor de pele, se justificaria uma superioridade inata de um ser humano sobre o outro por questões culturais, regionais entre outras.

“Todo racismo, inclusive o culturalismo racista dominante no mundo inteiro, precisa escravizar o oprimido no seu espírito e não apenas no seu corpo. Colonizar o espírito e as ideias de alguém é o primeiro passo para controlar seu corpo e seu bolso. De nada adianta americanos e europeus proclamarem suas supostas virtudes inatas, se africanos, asiáticos e latino-americanos não se convencerem disso. Do mesmo modo, de nada adianta nossa elite do dinheiro construir uma concepção de país e de nação para viabilizar seus interesses venais se a classe média e a população como um todo não for convencida disso”. SOUZA, J. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 24. 1.

Essa identidade cultural criada por Buarque — que seria adotada pela intelectualidade brasileira — do homem cordial, trata o brasileiro como “pré-moderno, tradicional, particularista, afetivo e, para completar, com uma tendencia irresistível à desonestidade” (SOUZA, Jessé, 2017, pag. 17). Mais tarde Roberto da Matta ainda ajudaria a popularizar essa percepção com o “Jeitinho Brasileiro”, que hoje ouvimos em todos os lugares como um senso comum da pré-disposição do brasileiro a corrupção. Esse discurso é muito mais voltado para o Estado como um agente de corrupção, o que justificaria as privatizações de nossos recursos naturais com foi o caso da vale e — como diz Jessé — futuramente da Petrobrás.


A percepção de que uma elite estatal é a causadora de todos os males também é rebatida por Jessé, que trás uma reflexão sobre o poder real, onde as elites que estão “fora do Estado” e procuram embolsar o bem público são as reais detentoras do poder no brasil. A analogia usada por ele, de que os políticos seriam os aviõezinhos — se comparados ao tráfico — que ficam com as sobras dos saques, enquanto toda a riqueza é distribuída para meia dúzia, é excelente para explicar a sua teoria. Na Operação Lava Jato a ideia de que o poder público era incapaz de cuidar da Petrobrás e de que as empresas nacionais eram corruptas, abriu as portas para um desmonte tanto da Petrobrás quanto das empresas nacionais, beneficiando agentes estrangeiros ou nacionais “fora do Estado”.


O racismo culturalista coloca em foco de superioridade os Europeus e os Estadunidenses como detentores de uma cultura mais rica, de um Estado com um melhor funcionamento, com melhores gestão de recursos, enquanto a periferia do capitalismo (América Latina, África, América Central e etc.) são o exato oposto. Mas não só uma divisão em países, como também uma divisão interna onde o centro do país pode se sentir superior ao nordeste, por exemplo, só por produzir mais recursos.


E aqui, um adendo ao escrito de Jessé. Mesmo votando por décadas em governos do PSDB, os comentaristas da Globo News na vitória da ex-presidente Dilma Rousseff em 2014, tratam São Paulo como uma referência de democracia, enquanto o Nordeste — generalizado — é visto como uma parte democraticamente atrasada do país por continuarem a votar no Partido dos Trabalhadores e serem — segundo os comentaristas — reféns da política “populista” do Bolsa Família. Não é só um desconhecimento, e um senso elitista dos apresentadores, mas também o que Jessé enxerga como problema da intelectualidade brasileira e desse paradigma construído por Sérgio Buarque. Uma vez que a mídia não é capaz de criar um pensamento próprio, ela se ancora no que é produzido pela elite intelectual que mais se adequa ao seu discurso.

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