O mito é “Fake”!
- Matheus Nubile

- 15 de mai. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de mai. de 2022

Quando os camisas negras marcham por toda a Itália no evento que posteriormente ficaria conhecido como Marcha sobre Roma, Mussolini e as lideranças fascistas começam a construir a imagem da Masculinidade Fascista. Homens fortes e armados, cidadãos de bem, marchando juntos em unidade contra um Estado decadente. Esse ato político serviria para não só mostrar a força do Partido Fascista, mas também como a propaganda política perfeita.
O problema é que os fatos se opõem ao mito. A marcha sobre Roma de fato existiu. Só que, como mais tarde Mussolini viria a confessar, ela não tinha a força que aparentava ter. Os paramilitares fascistas naquela altura eram numerosos. Mas seus armamentos não os possibilitavam a tomada do Estado. Mussolini arquitetou muito bem a jogada política. Em diversos cantos da Itália os militares e a polícia já faziam vista grossa para os camisas negras. A tomada é um mito, pelo simples fato de que não foi uma tomada, o Estado já estava de portas abertas para Mussolini.
Ao contrário de seus partidários, o Dulce não marchou como um homem heroico pelas estradas italianas. Ele seguiu até Roma num vagão de trem, e negociou seu posto. O Outsider da política Italiana entraria no jogo. Abriria mão de seu posicionamento contra a Monarquia, contra o catolicismo, e aceitaria cessar as perseguições aos anarquistas e camponeses no interior da Itália.
Essa história é muito boa. Por que ela desmonta toda a propaganda em torno do Mito. Não há nada de heroico na pseudo tomada de Estado pelos fascistas. Eles não chutaram as portas do Estado Burguês armados até os dentes para fazer a Itália voltar aos eixos. Eles bateram na porta, e o Estado os recebeu de braços abertos. Aqui no Brasil isso seria feito com um acordão. Com o supremo, com tudo.
E agora, falando de Brasil. O que essa história nos mostra sobre a nossa atual conjuntura política? Ela mostra que o fascismo precisa de um mito, e mito aqui não é a pessoa, mas a história contada para que um determinado grupo suba ao posto de mito.
MBL e a Marcha Sobre Brasília

Antes de eu começar a tratar da conjuntura atual. Queria lembrar que o Brasil teve também sua Marcha sobre Roma. Só que aqui ela teve um tom mais tragicômico. Se vocês não lembram, eu estou falando da “Marcha pela Liberdade a Brasília”, que foi um ato protagonizado pelo MBL em abril de 2015, que reuniu não só o Kim Kataguiri, mas também outros dezenove membros do MBL. E é a graça da coisa é exatamente essa, vinte “protoneoliberaizinhos”, com uma cobertura da mídia, e acompanhados atentamente pelos seguidores do MBL, Revoltados Online, Fãs do Bolsonaro, marchando, entre muitas aspas, até a capital do Brasil. Obviamente quando ninguém via eles entravam em um carro e esperavam a próxima cidade.
Mas uma coisa não dá para negar. Não é só a Marcha Pela Liberdade a Brasília, mas todo o processo de 2013 até 2018 que serviram para criar, ou recriar, o mito protofascista brasileiro. Foi o tempo que os protofascistas e neofascistas tiveram para reaver a sua masculinidade, travar a luta contra as feministas, os comunistas, os doutrinadores. Foi o tempo em que se criou o ressentimento. Que os homens santos começaram a combater a degeneração do mundo moderno. E com tudo isso nós criamos a figura do Bolsonaro.
E eu estou falando do Bolsonaro que hoje estampa, musculoso e com um fuzil de assalto na mão, a camiseta de diversos jovens Brasil à fora. Esse Mito, assim como o mito fascista italiano, não se sustenta na realidade. O que foi feito foi destruir a imagem de deputado incompetente, militar incompetente, pai incompetente e construir essa imagem das camisetas e memes. Mas a gente sabe que o Bolsonaro paga flexão igual uma galinha ciscando. Então a construção do mito não é a da força física, e sim a do politicamente incorreto.
Ao invés dos homens fortes pegando em armas, o Bolsonaro traz à tona a figura do tio do pavê, que nunca foi um expert em política mas reproduz tudo de ruim na nossa sociedade. É o “por favor, resgate a nossa masculinidade” que é o estopim para tudo o que aconteceu.
No que diz respeito ao pessoal no neofascismo bolsonarista a estética buscada é do homem comum do século passado. Capaz de proteger a família da “ditadura gayzista”, que necessita o tempo todo reafirmar sua masculinidade. Cada homem de bem deve ser uma mistura de Olavo de Carvalho com Danilo Gentili, ou seja, um conspiracionista que faz piada ruim. Medíocre na política e medíocre no humor.
A Estética do Mito

Então qual a fixação com o Bolsonaro que a extrema-direita adquiriu nesses cinco anos. Hora, o Bolsonaro é a exata representação de toda essa mediocridade. Ele é o cara que se opõe ao sistema ao qual ele fomenta e faz parte, inclusive colocando os três filhos na política mais suja que existe. Ele é o tiozão que não tem travas na língua, o povo estava exausto de políticos falando como doutores da enganação, então a opção que se faz mais atraente é o homem que não sabe enrolar, pois ele diz o que quer, da forma que quer. Sem se preocupar em como vai ficar a sua imagem.
A Estética bolsonarista é acertada em sua simplicidade. Armas para todo lado. Mulheres em posição subalterna. Muitas bandeiras brasileiras, e mais recentemente americanas. Se existia um estereótipo da esquerda petista. Existe hoje, também, um estereótipo da direita bolsonarista. Mas o que é realidade e o que é Mito nessa história toda. E qual mito ajudou a forjar essa realidade em que vivemos. Por que como eu disse no começo desse vídeo, Mussolini constrói o mito fascista na tomada sobre Roma e logo após ele diz que essa tomada não existiu.
Bolsonaro se dizia contra o establishment, contra as grandes emissoras de TV, contra os modelos doutrinários educacionais, contra a bandidagem, e olha, contra tanta coisa que esse vídeo teria mais de duas horas se eu enumerasse todas elas. A realidade é que não existiu um único evento que possa explicar a ascensão do bolsonarismo, assim como não existiu um único evento que possibilitou o domínio fascista. Bolsonaro constrói a sua imagem em cima do apelo da população por uma resolução das crises políticas. E se sobressai entre os outros candidatos por oferecer respostas simples para problemas complicados.
Mas vamos sair dessa imagem musculosa do Mito, e passar para a realidade. O fato é que as políticas aplicadas por Bolsonaro são totalmente opostas ao que ele pregava em campanha. E algumas pessoas começam a notar isso. Inclusive pessoas de dentro do governo, que recentemente tiraram o corpo fora. O Fake não é só nas mensagens de WhatsApp mas é também no .
É bradar por semanas contra a Venezuela, dando de machão pedindo guerra, mas quando as coisas esquentam dizer que não há possibilidades de guerra contra o país vizinho. É alardear que o Brasil durante 16 anos procurou comércio com a Rússia, que na mentalidade da extrema-direita é um país comunista, e depois procurar comércio com a Rússia. É dizer que em seu governo não teria espaço para as grandes mídias, mas pagar ao Ratinho para fazer propaganda de uma reforma da previdência.
O Mito aqui, na realidade, é tudo o que foi projetado no Bolsonaro. Os processos que se iniciaram em 2013, eram de insatisfação com o sistema de política representativa, e o fascismo mais uma vez se coloca como a solução para esses problemas. Se a justiça burguesa não resolve, então fecha o STF e vamos resolver nós mesmos. O problema é que uma hora o povo percebe que nada será resolvido. Por que os problemas da população são problemas imediatos.
Teoria da conspiração e masculinidade tóxica não garantem empregos e não alimentam o povo.


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